Que importa teu momentâneo suplício
 se és imortal?
 Que importam teus olhos depauperados
 se é teu Espírito que vê?
 Que importa ter tão pouca audição
 se é tua Alma que ouve?
Que importa esta momentânea treva
 se amoroso amplexo de luz te aguarda
 para além da vida?

 Que importa esta árdua luta pela sobrevivência
 se tudo é palco, cujas cortinas
 se fecham a qualquer momento
 devolvendo-te a tão sonhada liberdade?
 Que importam os desequilíbrios do teu veículo físico
 se tua essência imortal
 não pode adoecer nem morrer jamais?
 Que importam esta solidão profunda,
 carências, brados estéreis
 por um pouco de compreensão e amor humanos
 se no cósmico silêncio do Infinito, tua Alma
 intui e conhece todas as respostas?

 Que importa o pálido e insignificante trajeto do teu rio
 contornando montanhas, saltando abismos
 se teu destino final é regressar ao grande Oceano
 do qual um dia saíste?
      Que importam as perdas aparentes, as ausências,
 dos seres amados
 se ao final da grande viagem, por lei de afinidade
 desembarcarás na mesma Estação?

 Importa apenas prosseguir
 a despeito de todas as dores e obstruções.
 Importa apenas AMAR, única garantia de que
 não terás vivido em vão
 Passaporte seguro para a grande travessia
 porque, tudo o mais eu não poderás levar
 e a qualquer momento
 terás que deixar.
 
(No Livro Palavras Para Entorpecer o Coração)